Será que a Clubhouse vai criar um novo tipo de influenciadores?


Não foram precisas muitas horas na Clubhouse para que duas questões se adensassem na
minha cabeça: será que esta rede social vai criar um novo tipo de influenciador? Como podem
marcas de moda, que vivem de imagem, adaptar-se a esta aplicação de áudio? Pois bem, serve
este artigo para tentar responder a estas questões.


Nunca a expressão ‘dar voz a alguém’ fez tanto sentido como agora. Tudo graças à rede social
Clubhouse. Dividida por salas virtuais, com os mais variados temas, basta entrar para ouvir
uma conversa em direto. A grande diferença entre ouvir debates nesta aplicação ou na rádio, é
que o ouvinte tem a possibilidade de intervir na conversa. No palco estão os moderadores a
que se pode juntar se for convidada ou se pedir para ir ao palco, ativando o símbolo com a
mão e for aceite como speaker.

A aplicação tornou-se absolutamente viral em fevereiro de 2021, apesar de ter sido lançada
em abril de 2020. No início de fevereiro as buscas pela aplicação cresceram mais de 500%, e a
5 de fevereiro eram já mais de 6 milhões os utilizadores desta aplicação de áudio, no mundo. Portugal não ficou alheio ao fenómeno. Apesar de estar apenas disponível para iPhone e a entrada ser feita por convite, já fazem parte deste clube milhares de portugueses.

No dia 10 de fevereiro juntei-me à Clubhouse. O que me impressionou na aplicação foi acesso
fácil a pessoas que dificilmente se cruzariam na minha vida, possibilitando uma troca de ideias
como se estivéssemos no mesmo espaço físico. Figuras públicas, políticos, especialistas em
diversas áreas e pessoas leigas na matéria em discussão juntam-se numa mesma sala para
debater o tópico de conversa em cima da mesa. Esta facilidade de acesso e a troca de ideias
absolutamente natural,
com um tom de conversa corriqueira, foi o que mais me cativou, e
ainda cativa nesta aplicação.


Quando as ideias valem mais que os sapatos


Esta nova dinâmica de interação onde a imagem não entra, faz-nos questionar o valor da
fotografia e a sua validade enquanto promotora de influência
. Estaremos a assistir à
construção de um novo tipo de influenciador? Parece-me que sim, e não o digo por ser apenas
um palpite, já existem casos de pessoas que criam salas frequentemente e têm um número de
seguidores bastante interessante, quando comparado com o número de seguidores nas suas
outras redes.


Inês Mendes da Silva, CEO da Notable (que tem entre os seus agenciados Cristina Ferreira, Rita
Pereira, Carolina Loureiro, Inês Aires Pereira, entre outros), partilha da minha opinião. «A
Clubhouse é uma plataforma onde o utilizador pode escolher os seus temas de interesse,
participar em clubes ou aceder a salas com temas em debate de várias naturezas, como o
posicionamento de marcas, a criação de conteúdo, a alimentação saudável, o desporto, a
cultura do cancelamento, o empreendedorismo entre muitos outros. Assim sendo, qualquer
pessoa
que esteja com a app aberta e mesmo não sendo moderador ou criador de uma sala,
pode ter intervenções que se destaquem que façam dele um opinion leader naquela
plataforma, ganhando seguidores que queiram ouvi-lo», explica.


Nesta plataforma, o conteúdo está no que se diz e não no que se mostra ou no que se escreve.
Tanto as legendas, como a fotografia, por muito espontâneas que pareçam, podem, na
verdade, ser extremamente pensadas e até trabalhadas para influenciar mais ou menos. Na Clubhouse essa espontaneidade sob suspeita não existe, porque é tudo em direto. Mas será
este um problema para os influenciadores nativos de redes sociais onde a imagem é rainha?
«A capacidade de influenciar não depende apenas da imagem, há verdadeiros influenciadores
que não se suportam apenas na qualidade estética do conteúdo. Por outro lado, na Clubhouse,
é tudo ao vivo: enquanto as pessoas falam, caem avisos de mensagens de whastapp, chora o
bebé, mia o gato, toca a campainha e isso torna-a uma experiência muito orgânica, com
momentos até inusitados. São pessoas de carne e osso “diante de nós”. E se existe curiosidade
sobre esses seguidores com muita expressão no Instagram, no Facebook ou noutra
plataforma, também irá existir num registo destes, que se caracteriza por este realismo»,
explica Inês Mendes da Silva ao Pano Cru.

Para Nuno Baltazar, designer de moda, também a autenticidade é a grande mais valia desta
rede social. «Na Clubhouse o que dizes é o que vai influenciar o teu número de seguidores. É
uma oportunidade de influenciar pela comunicação e pensamento, e não por uma imagem que
pode ser facilmente manipulada. O nível de autenticidade é muito mais válido».


O que leva as pessoas a seguir alguém

Quando acabei de escrever este subtítulo peguei no telefone, abri a Clubhouse e comecei uma
sala. O tópico da mesma? ‘O que vos leva a seguir alguém na Clubhouse’. Apesar da sala
reduzida e muito rápida, ao contrário das longas horas de conversa que costumam acontecer
na aplicação, foi possível recolher alguns dados.


Um ponto comum a todas as opiniões dadas foi que o que as pessoas dizem é o mais
importante na hora de decidir se querem seguir aquela pessoa ou não.
Outro fator
importante é a área de interesses que as pessoas apresentam, seja pela sua profissão, seja
pelos clubes que seguem, ou salas que normalmente frequentam. Não menos importante é a
rede de contactos pré-existente, ou seja, os utilizadores tendem a seguir pessoas que
conhecem no mundo real, ou pessoas que seguem noutras redes socias.

Como podem as marcas de moda usar esta rede social

Quando as redes sociais começaram a ganhar força a comunicação das marcas virou para elas
as suas antenas e nunca mais voltou atrás. Agora, depois de anos a investir em imagem como
podem as marcas, sobretudo as de moda, ganhar espaço numa rede onde as ideias são tudo?
A realidade é que a demanda para que as marcas mostrem mais dos seus valores, tem vindo a crescer de forma exponencial. Os consumidores estão cada vez mais preocupados em optar
por insígnias que representem os seus ideais sociais e culturais. Sendo a Clubhouse uma
aplicação que promove o debate, o seu potencial é enorme.

«Enquanto criador de moda de autor, o que de melhor posso fazer pela minha marca é
mostrar-me.
Uma plataforma onde o que conta é o conteúdo é uma ótima oportunidade para
revelar como penso. Se eu conseguir suscitar interesse nas pessoas, elas vão acabar por
procurar o meu trabalho que vive e cresce de conteúdo. Além disso, com esta ferramenta
poderei criar salas de conversa em que falo do meu universo criativo», revela Nuno Baltazar ao
Pano Cru.


Também Virgil Abloh, diretor criativo da Louis Vuitton, vê na Clubhouse uma oportunidade de
se aproximar do consumidor de forma inédita. «Uma plataforma como a Clubhouse é um
espaço onde, como designer, posso falar com a audiência sobre a inspiração de uma coleção,
de uma forma que anteriormente só fazia com a imprensa. É uma nova forma de falar sobre inspiração, sobre como produto surgiu, é uma ligação muito significativa», revelou ao BOF
podcast.

Para Inês Mendes da Silva estas oportunidades estendem-se a todos os tipos de marcas, que
podem inclusivamente usar uma estratégia de influenciadores como moderadores destas
conversas. «Uma marca pode promover conversas sobre temas adjacentes aos seus produtos
e serviços.
Na Clubhouse, as marcas, utilizando como porta-vozes os influenciadores, podem
proporcionar momentos de diversão, de aprendizagem, de criação de networking e de partilha
de experiências com pessoas do outro lado do mundo que é, no fundo, o que as marcas
procuram», explica.

Conteúdo e criatividade são os dois dos grandes pilares de uma boa estratégia de marketing e
a Clubhouse não é exceção. Resta descobrir quais vão ser as marcas que conseguem apanhar
este comboio a tempo de fazer a diferença no mercado.

Imagens: Unsplash

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