Desfilar de forma independente em Portugal

Apresentar Moda sem o suporte dos grandes calendários da Indústria da Moda é uma realidade antiga, mas a pandemia veio torná-la ainda mais premente. Portugal não é exceção e a Moda também se escreve de forma independente, longe da alçada das semanas de moda.

Jacquemus outono/inverno 2020-21
Diogo Miranda primavera/verão 2021
Jacquemus primavera/verão 2021
Gucci resort 2021

2020: o ano da independência

A pandemia congelou o mundo e ninguém sabe ao certo quando vamos começar a descongelar. Uma paralisação que afetou todos os sectores e a Moda não foi exceção. Esta mudança radical de hábitos de consumo E, também, as restrições na produção e nas apresentações de Moda fizeram muitos designers repensarem os seus calendários.

Em maio de 2020, Dries Van Noten, juntamente com outros grandes nomes na moda, publicou uma carta aberta que pedia alterações nos calendários das semanas de moda. A petição conta com assinaturas de Chloé, Gabriella Hearst, Missoni, Erdem, Proenza Schouler, Lemaire e muitos outros, entre os quais os designers portugueses Nuno Baltazar e Carla Pontes. Apesar de na altura esta petição ter agitado as águas, o que é facto é que as alterações não se chegaram a verificar nas semanas de moda internacionais. No entanto, foram muitos os nomes que abandonaram as semanas de moda e apresentaram as suas coleções de forma independente.

Em outubro de 2020, também Luís Buchinho e Diogo Miranda, fizeram esta escolha. Desfilar sem a rede de apoio, em Portugal, não é uma realidade nova e é sobre ela que nos debruçamos neste artigo.

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A pandemia teve consequências até para as maiores semanas de moda, que viram alguns dos seus grandes nomes saírem do calendário. Gucci e Botega Venetta não apresentaram a suas coleções na semana de moda de Milão. Versace também se afastou do calendário. E, em Paris, sentimos a falta da Saint Laurent, Balenciaga e Alexander McQueen. Todas esta marcas decidiram apresentar de forma desvinculada dos calendários oficiais. Esta escolha pode ter sido tomada pelas circunstâncias, mas a verdade é que apresentar de forma independente tem sido a opção de vários designers ao longo dos anos. Jacquemus foi um dos que decidiu tomar as rédeas do seu calendário em 2019, uma decisão que alguns designers portugueses tomaram há mais de uma década.

A Moda Nacional que desfila sem rede

Em Portugal, apesar de existirem duas semanas de moda, e de estas serem os principais palcos da moda nacional, também existem designers a apresentar coleções de forma independente. E esta nem é uma realidade nova para todos, há quem apresente de forma independente há bem mais que uma década.

«Eu faço desfiles sozinho desde sempre. O meu primeiro desfile foi numa discoteca, há 20 anos. Foi assim que comecei. A partir daí fui-me profissionalizando, o segundo desfile já foi no Palácio da Bolsa. Estou muito habituado a fazer tudo à minha imagem. As coisas evoluíram de tal forma que não me imagino, pelo menos dentro de Portugal, a pertencer a uma semana de moda, onde é tudo estandardizado, onde todos têm a mesma estrutura. Eu gosto da adrenalina de ter um espaço à minha imagem», conta Gio Rodrigues, que apresentou uma única vez no Portugal Fashion, há 16 anos. O designer apresenta desfiles de forma independente de forma regular e consistente.

Também Fátima Lopes é uma veterana no que toca a apresentações a solo, apesar de, por vários anos, ter integrado os calendários tanto da ModaLisboa, como do Portugal Fashion. «Eu comecei em 1992 sozinha, não havia nada na altura, tinha acontecido ModaLisboa antes, mas quando comecei não havia nada. Fiz o primeiro desfile no Convento do Beato, depois no Museu da Eletricidade, foram grandes eventos. Depois recomeçou a Modalisboa e eu juntei-me ao calendário. A seguir começou o Portugal Fashion e eu fui para o Portugal Fashion. Já fui exclusiva de ambos, e também fiz os dois ao mesmo tempo, agora a opção é ser independente. Nesta altura da minha carreira faz-me muito mais sentido eu apresentar os desfiles quando me apetece, com o meu público, no sítio em que eu quero. Essa é a opção do momento e não me parece que vá mudar de ideias, nem quero mudar de ideias, não quero outras opções», revela a criadora madeirense.

Quem nunca pisou nenhum dos palcos nacionais da moda foi Nuno Velez, que fez três desfiles independentes em Portugal, antes de se estabelecer no Brasil como designer de moda. «Fiz algumas abordagens e nenhuma teve efeito, então decidi que o melhor era fazer pela minha conta e risco e, assim, não dependia de ninguém. Todos os sucessos e erros que acontecessem na apresentação só teriam um responsável, que era eu».

Novos nestas andanças são Luís Buchinho e Diogo Miranda, que na edição de outubro de 2020 não marcaram presença no Portugal Fashion. Para Luís essa é uma decisão que faz sentido manter também na edição de março, enquanto Diogo Miranda decidiu regressar ao calendário desta semana de moda. «Apresentar de forma independente foi fruto do momento que estamos a passar. Não faz sentido para mim continuar assim, porque temos muito mais valias estando associados a uma plataforma do que quando fazemos as coisas sozinhos. Numa plataforma as duas partes saem a ganhar», explicou o designer ao Pano Cru.

Luís Buchinho
2020

Fátima Lopes
1999

Diogo Miranda
2020

Nuno Velez
2015

Gio Rodrigues
2021

A liberdade dos desfiles independentes

A liberdade é a palavra que mais se repete quando falamos em vantagens de atuar a solo. A liberdade não só para escolher cenários, mas também formatos, calendário e até lista convidados.

«A partir do momento em que comecei a desfilar de forma independente o público dos meus desfiles mudou, porque quando se faz parte de um grupo, mais de metade dos convidados são da organização. Isso para mim sempre foi complicado, porque sempre tive mais pessoas para ir ao desfile que os convites que tinha», conta Fátima Lopes, que confessa que agora o seu maior problema é arranjar espaços suficientemente grandes para o seu público.

A cobertura mediática, ao contrário do que se poderia esperar, também não foi um problema para estes designers. «Os meios onde a coleção saiu foram os mesmos em que estava habituado a sair, independentemente de não estar numa semana de moda. Até acho que acabei por ter um bocadinho mais de destaque precisamente por isso. Sendo individual, que no meu caso não foi, porque a comunicação foi feita também com o Luís Buchinho, acabei por ter mais tempo de antena do que num evento em que se tem de cobrir muitas marcas», conta Diogo Miranda.

Gio Rodrigues partilha da mesma opinião, apesar de reconhecer que existe uma menor disponibilidade da imprensa, especializada em moda, para se deslocar um desfile individual. «A nível de reconhecimento de marca acabo por ter mais imprensa do que numa semana de moda porque há revistas que, às vezes, me dão várias páginas, não são revistas de moda, mas são sociais ou mais generalistas. Esta imprensa dá-me muito destaque, se eu estivesse numa semana de moda, iria aparecer num quadradinho misturado com os outros todos», assegura o designer.

O reverso da medalha

Apesar da liberdade ser uma maluca, como canta Jorge Palma, a verdade é que nem tudo é aventura e romance. Neste caminho de liberdade também há inconvenientes e a falta de apoio financeiro é o que mais se destaca.

«Correu tudo muito bem, de uma forma mais individualista, mas com um esforço de produção e custos acrescido. Eu estava habituado a acarretar apenas com os custos de produção da coleção. (…) Às vezes esquecemo-nos de que a moda precisa de capital. Temos assim a ideia de que as imagens se fazem com uma varinha de condão, quando se fazem, na verdade, com uma estrutura financeira brutal, onde quanto mais capital tiveres para investir mais ideias tornas possíveis. E ideias temos muitas, mas na maior parte dos casos não as conseguimos realizar, é esta a nossa realidade», explica Luís Buchinho, ao Pano Cru.

Nuno Velez também reconhece o significado de um apoio financeiro para as estruturas pequenas. «Apresentar sozinho não me prejudicou rigorosamente nada, a não ser na parte económica porque és tu que tens de arcar com todas as despesas. Estares inserido numa semana de moda retira-te uma quantidade de despesas, de manequins, de maquilhagem, de cabelos, de localização… o designer só tem de pensar em gastar dinheiro a fazer a coleção. Isso é muito bom, sobretudo para estruturas pequenas como a minha. Seria uma ajuda incrível, mas felizmente consegui-lo fazê-lo de forma independente, das três vezes que apresentei em Portugal».

Bastidores do desfile do desfile de Nuno Velez, coleção outono/inverno 2015-16

Tendo em conta que a falta de dinheiro é um dos grandes problemas da moda nacional, sobretudo quando se é um jovem designer, também Fátima Lopes reconhece o papel fundamental das semanas de moda. «Estas duas plataformas (ModaLisboa e Portugal Fashion) são fundamentais para os jovens criadores. Foi fundamental para mim, quando comecei a minha carreira, porque apesar de ter começado sozinha, todo o apoio que recebi nos anos em que apresentei tanto num lado como noutro, foram fundamentais. Os jovens sem estas iniciativas, sem estes apoios, dificilmente conseguiriam mostrar os seus trabalhos tanto em Portugal como no estrangeiro».

Gio Rodrigues também reconhece a importância de apoiar os jovens criadores, mas defende que designers já estabelecidos, como é o seu caso, deviam financiar os seus desfiles. «Acho que as semanas de moda devem existir, mas que os fundos devem ser usados para os jovens criadores de moda. Porque se o designer tem capacidade para ter 20 anos de carreira, também devia pagar os seus desfiles. O dinheiro deveria ser usado para ajudar os jovens designers e não pessoas que estão cá há vinte, ou trinta anos, e continuam a usufruir dos benefícios do Estado».

Quanto custa um desfile

Espaço, cenografia, manequins, cabeleireiros, maquilhadores, aderecistas, coordenação de bastidores, coordenação de desfile, técnicos de som, técnicos de luz… e provavelmente estou-me a esquecer de alguma coisa. Isto é o mínimo indispensável para um desfile, e tudo isto envolve custos. Falamos de um intervalo entre os 10 mil e os 50 mil euros, porque tudo depende das escolhas que se fazem.

Nuno Velez revela que as apresentações que fez em Portugal custaram entre os 12 mil e os 14 mil euros. Fátima Lopes coloca a bitola nacional nos 15 mil euros, mas quando falamos de Paris a coisa moda de figura: «é muito difícil fazer um desfile com menos de 50 mil euros».

«Já fiz desfiles nos sítios mais icónicos, Torre Eiffel, Louvre, Museu de l’Armée, mas também já fiz em sítios mais acessíveis como galerias, salas de hotéis, e também já fiz em locais patrocinados. Uma sala em Paris, hoje em dia, não se consegue por menos de 10 mil. Depois tudo o resto é pago e caro, e é tudo pago com muita antecedência. As adjudicações de espaço são feitas seis meses antes e com 50% do valor na reserva. Portanto, tudo isto tem custos que inviabilizam a maior parte dos criadores. Por muita vontade que tenham é de facto muito caro», revela a criadora.

Desfile de Fátima Lopes no Museu Nacional dos Coches, patrocinado pela Delta Q, em abril de 2018.

‘Como se paga isto tudo?’ é a questão que deve ter neste momento a ocupar-lhe a cabeça. A resposta é simples: patrocínios. Tanto Gio Rodrigues, como Fátima Lopes, que são dos designers entrevistados, para esta peça, os que têm maior número de desfiles independentes na carreira, revelaram que sem patrocínios seria praticamente impossível manter o calendário.

«Eu trabalho, normalmente primeiro os orçamentos da minha parte e da parte dos patrocinadores, e também trabalho com parceiros. Mediante isto tentamos arranjar um equilíbrio. Os patrocinadores são uma peça importantíssima, felizmente eu tenho patrocínios que estão comigo há muitos anos, porque sabem que eu lhes dou retorno. Sem patrocínios não existem desfiles» diz, sem pudores, Gio Rodrigues.

«O meu início de vida foi independente, mas com patrocinadores comerciais. Com foi o caso do desfile do biquíni de diamantes. Algumas pessoas acharam que tinha sido a minha empresa a sustentar isso, mas obviamente que não foi, foi uma multinacional de diamantes belga. É possível fazer um desfile lá fora sozinho, de forma independente. Mas manter um calendário de apresentações bianuais, só é possível porque se vão buscar patrocínios. Só assim é possível manter uma presença estratégica, e com uma lógica de continuidade. Não faz sentido ir para Paris uma vez e desistir. Eu acho que não tem lógica nenhuma levar criadores portugueses, uma vez um, outra vez outro, lá fora. Isso não é fazer carreiras, isso é destruir carreiras, é dar-lhes sonhos e depois tirar-lhes o tapete. Por isso, o ideal é estar sozinho e sermos donos do nosso nariz e do nosso trabalho. Mas é preciso criar as estruturas para encontrar os patrocinadores certos e isso só se consegue com uma empresa sustentável», sublinha Fátima Lopes.

O Futuro é dos lobos solitários ou das alcateias

As opiniões divergem no que diz respeito ao futuro. Para Diogo Miranda o regresso ao Portugal Fashion é já uma realidade, acreditando que a «esta pandemia veio mostrar que podemos fazer as coisas de outra forma, mas isso não significa que seja a melhor forma».

Nuno Velez, que hoje trabalha sobretudo em moda feita por medida, está a preparar uma coleção comercial de clássicos intemporais. Esta coleção será posta na rua em 2022 e não descarta a hipótese de a integrar numa semana de moda nacional, já que «existe a parte de compradores e comercial, que as semanas de moda se esforçam para que funcione. Apresentando individualmente, a parte comercial torna-se muito restrita, e se eu quero uma coleção de básicos de pronto a vestir, não faz sentido apresentar a minha coleção a um nicho de mercado».

Fruto do tempo extremamente delicado que vivemos, com uma crise económica já com o pé na porta, Luís Buchinho revela-se incapaz de fazer qualquer exercício de futurologia. «Neste momento não consigo fazer projeções. Para mim, pensar daqui a seis meses é quase como pensar daqui a dez anos. É impossível projetar, eu não faço a mínima ideia o que vai ser a conjuntura de outubro de 2021, não sei se vamos estar confinados, se vamos estar vacinados, se vamos ter uma nova variante, se vamos ter eventos ao vivo… não faço ideia como vai estar a própria saúde financeira da minha marca, porque nós estamos a atravessar uma crise profundíssima desde que isto começou. Nós temos todas as despesas que sempre tivemos mas com uma receita reduzidíssima, portanto eu não consigo sequer projetar o que vai ser o meu estado no verão deste ano. Estou a viver mês a mês, e a arranjar soluções que me parecem pertinentes e que vão fazendo com que a saúde financeira da empresa se vá refrescando. Mas estamos a viver um momento muito difícil».

A única certeza que o designer tem é que assim que possível, se for possível irá deixar o modelo de vídeo que adotou desde outubro de 2020, para regressar ao formato de desfile. «Estamos a viver um momento francamente diferente e que acho que vai cansar, nós precisamos do lado mais emocional, mais caloroso, da multidão, mas é o que temos neste momento», contemporiza Luís Buchinho. «O desfile para mim é o único modelo, que a nível emocional, me faz vibrar e me dá um desejo acrescido de dar tudo pela coleção. É um momento muito forte, onde há um movimento e uma emoção, uma adrenalina, um diálogo com o público, uma riqueza de imagem e onde a roupa ganha uma dimensão muito orgânica e diferente das que temos no nosso imaginário de raiz. Nada substitui isso! Tudo o resto é um modelo mais mecânico, mais racional, mais estudado, acontece em diferido, é muito diferente. O lado da adrenalina de um desfile é algo insubstituível. É o mesmo do que ir a um concerto ou ver um concerto na televisão», finaliza.

Vivemos tempos ímpares, que pedem medidas que nos pareciam impensáveis há um ano. A pandemia mudou não só a forma como vivemos, mas também a forma como consumimos, e esse é um ponto sem retorno. No entanto, há coisas que o digital não consegue substituir, o toque e a emoção são duas dessas coisas. Por essa razão, os desfiles de moda tradicionais não hão de acabar. É possível sim, como se lê neste artigo, fazê-los de forma individual, com meios próprios, mas como também vimos o custo financeiro dessa decisão não está ao alcance da maioria das marcas. Assim, as semanas de moda continuarão a ser os principais palcos desta Indústria, continuando o trabalho notável que têm feito até aqui. Mas isso não significa que não surjam alguns lobos solitários.

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