A carta de Eduarda Abbondanza para a Eduarda que fundou a ModaLisboa

Há histórias especiais, que nos fazem guardar a página de uma revista, para conservar para sempre aquele pedaço de magia. Esta é uma dessas histórias, mas no digital. O Pano Cru desafiou a Eduarda Abbondanza a contar pelas suas palavras, e com total liberdade, estes 30 anos de ModaLisboa. A Eduarda escreveu uma carta à menina sonhadora e aguerrida, que era quando fundou a ModaLisboa. Esta é uma carta de amor pela moda, pela vida e pelo sonho.

Lisboa, 30 de março de 2021.

Olá, Eduarda,

Escrevo-te 30 anos depois de fundares a ModaLisboa, com a plena consciência de que, de onde estás até onde eu estou, o teu mundo vai mudar muitas vezes. Sei que estás preparada para isso, mas não consegues prever o quanto essas mudanças te vão ensinar — e ainda bem.

Vais cometer muitos erros e perceber que não consegues voltar atrás. Vais conhecer a beleza da falha e obrigar-te a ser melhor, mais profissional, em cada dia, todos os dias. Até porque cada 24 horas te vão trazer um desafio que não conseguirás antecipar. Sim, esperam-te 30 anos de superação constante, com momentos sofridos, e outros tantos gloriosos e iluminados.

Estás a criar um projeto que queres que mude a Moda de autor em Portugal, com toda a garra e força e ímpeto dos inícios, e posso dizer-te que conseguiste. Que o pensamento, as ideias e a criatividade continuam a ser a base de tudo, continuam a ser o que pode mudar a sociedade. A sociedade que, vais descobrir, é o tecido de um país conservador — sim, ainda hoje — e que vais passar toda a tua vida a tentar mostrar que a Moda é uma disciplina maior, com um sentido maior, que transcende a roupa, que transcende a materialidade. São os comportamentos, as atitudes, maneiras de estar, de comunicar, é das poucas coisas capazes de tocar todas as dimensões. Vais ver brechas de esperança na chegada das novas gerações ao poder, capazes de quebrar um pouco desse conservadorismo, e surpreender-te com a resistência na receção e entendimento dessas novas linguagens. Entenderás que o caminho não é sempre em frente. Há questões externas demasiado presentes e pesadas para que as consigas superar. As políticas do país, de internacionalização, o atraso na perceção das indústrias criativas, da importância da criação de marca e da Moda de autor, tudo isto te obrigará a lutar todos os dias, demasiadas vezes sem veres frutos. Não vais concordar com certos processos e digo-te que estarás certa: até hoje, muitos deles não criaram oportunidades de crescimento e poderíamos estar muito mais à frente do que estamos. Aceita que é maior que tu. Aceita, mas não desistas, e não te cales. Aprende a engolir sapos, e eu sei que agora não queres engolir nem um, mas vais saber gerir isso com o tempo. Engole um sapo e cospe fogo logo a seguir.

Vais continuar a tentar transformar mentalidades, esse trabalho colossal e lento: aviso-te que são precisos anos para conseguir pequenas vitórias e que as podes perder em dois segundos. Tens sempre de tentar, no círculo da tua influência, melhorar o mundo: constrói um projeto que tenha como base a liberdade, a democracia, o mérito, a igualdade, e mantém esses valores muito perto, sempre presentes. O destino não está traçado: tens de escrevê-lo com as tuas decisões.

Não quero que isto seja uma lição de moral, até porque sei que ainda aprendo todos os dias. Só assim é que vale a pena. Então, para aliviar o tom, conto-te que nunca vais desistir de descobrir Lisboa, de levar a Moda a espaços que nunca tinham sido tocados por ela, de abrir a cidade aos lisboetas e ao mundo numa bonita relação com a Câmara Municipal — a ModaLisboa já inaugurou pavilhões, transformou armazéns, reabilitou edifícios militares, já invadiu jardins e mercados e chegou até a sair de Lisboa, imagina. Ainda assim, muitos dos Designers que vos rodeiam agora continuarão convosco, vão vê-los crescer e prosperar, vão cumprir todos os objetivos que traçaram para eles. E, assim que forem cumpridos, traçarão outros, descobrirão novos Designers, interligarão gerações, vê-las-ão brilhar aqui e internacionalmente. A ModaLisboa, que passou de uma ação sazonal para uma Associação a tempo inteiro, abriu espaços de conversas e discussões, teve uma loja, e a Lisboa Fashion Week é agora um evento que agrega milhares de pessoas de todo o mundo, em plataformas que te vão dar muito gozo explorar.

Vais construir uma ModaLisboa que nunca se esquece da herança nuclear, a catadupa de ideias e de criativos, visionários, artistas, ao mesmo tempo que a abres a todos, enquanto democratizas a Moda num projeto que adquirirá uma envergadura para além de todas as expectativas. Um projeto que toca em várias áreas de influência, de gestão, de economia, de política, de cultura. Um projeto que, ainda assim, continua a ser uma casa.

Tenho pena de te dizer que vais perder um pouco do romantismo e ingenuidade que tens agora. Serás mais desconfiada. Não sei se entendes a dimensão do que te vou dizer: estamos a passar por uma pandemia. O mundo saiu dos eixos, quebrou. Vejo o status quo ser desafiado, cheira-me a mudança, sei que, em teoria, é altura de destruir e construir melhor. Mas sinto que, de outras formas, já estive aqui. E tenho medo deste lugar, tenho medo que volte tudo ao mesmo. Que se invente um novo pior. Resta-me, talvez, concentrar-me na sorte que tenho, na sorte que vais ter, na capacidade e possibilidade de criar o meu próprio território criativo. Esse sim, evolui todos os dias, transforma-se, molda-se, desafia-me. Digo-te que trabalhar em grupo é sempre maior e melhor. Aqueles com quem vais trabalhar — e serão centenas ao longo destas três décadas — vão-te acrescentando mundos naquilo que é a perspetiva, a visão, o amor e a dedicação. Rodeia-te sempre de pessoas diferentes mas tem uma equipa em quem confies, porque tudo o que farás, será com ela. Nunca deixarás de te admirar, de te fascinar pelo conceito de Moda. Mas vais apaixonar-te cada vez mais pela humanidade que a faz, pela comunidade que ela cria. Pela comunidade que a ModaLisboa continua a criar. E sentirás um orgulho desmesurado por, há 30 anos, teres continuado.

Com amor,

Eduarda.

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