Desfiles digitais: um encontro entre cinema e moda, onde a roupa pode ficar perdida

Sem visitas a bastidores, sem tocar a roupa nos cabides, sem trocar ideias com os designers depois das apresentações, sem ver ao vivo as bainhas, costuras e botões, sem viver a coleção… Foi sem todas estas coisas que assisti e escrevi sobre o Take 1 do Portugal Fashion, que se realizou nos dias 18, 19 e 20 de março. Esta é a realidade possível, e é o espelho do esforço extraordinário que tem sido feito para a Moda não parar. Se é o ideal? Todos sabemos que não.

Uma hora e várias notas depois de ter começado a rever todos os vídeos dos desfiles digitais, do Take 1 do Portugal Fashion, aqui estou eu perante uma folha em branco. Uma folha em branco como tantas outras com que me deparei ao longo dos anos, em que analisei desfiles e escrevi sobre eles. Todas as reviews de desfiles começam com uma folha em branco, mas esta é diferente. Escrever sobre uma semana de moda em que o único contacto que tive, com todas as coleções, foi meramente virtual, é uma novidade.

Notas prévias

Sendo este um momento especial e único parece-me importante tecer algumas considerações. A primeira das considerações: a experiência de um desfile virtual, do ponto de vista de quem tem de escrever sobre as coleções, não me cativa. Torna-se difícil fazer uma análise justa da roupa. Mesmo sendo possível compreender muita coisa, nada substitui uma caminhada a 50 cm do nosso nariz. Ainda assim, esta é a possibilidade que existe neste momento, e é fundamental para o setor que a Moda não tenha ficado parada. Serve apenas este disclaimer para lembrar que não é justo, nem ideal, ter de analisar coleções desta forma, ainda assim, não é impossível.

A segunda consideração está relacionada com a duração dos vídeos. Tornou-se claro, para mim, que vídeos longos (mais de 4 min), fazem sentido apenas para streaming, uma vez que as pessoas podem entrar a meio e, por isso, é interessante que todos os coordenados sejam filmados mais do que uma vez. Já nas redes sociais e plataformas digitais não faz sentido que um vídeo seja demasiado longo, devendo existir uma versão mais curta do streaming para esse efeito. A exceção impõe-se quando os vídeos contam uma história e são suficientemente dinâmicos para prender o espectador, é o caso da apresentação da Alexandra Moura.

A terceira, e última, nota está relacionada com a forma como a roupa é filmada. Quando se pensa num vídeo para mostrar uma coleção, no caso de ser esse o objetivo – o designer pode apenas querer transportar o consumidor para o universo criativo – é fundamental mostrar a roupa no seu melhor. O movimento altera as formas, e é normal. Mas, por vezes, pode ser bastante prejudicial para o aspeto do que está a ser mostrado. Num desfile torna-se difícil proteger a roupa dessa mutação, em alguns casos perigosa, já num vídeo existe possibilidade de escolher o melhor ângulo, e essa possibilidade deve ser usada.

Vamos ao que interessa

Isto não começa pela primeira apresentação, porque como já percebeu, este não é um artigo normal. Vamos subverter um pouco as coisas tal como Alexandra Moura fez nesta coleção. A designer apresentou o filme mais bem conseguido do Take 1 do Portugal Fashion:  teve ritmo, narrativa e mostrou bem a roupa. Além disso, teve direito a carros embrulhados em plástico – como se fossem tupperwares com restos do jantar, prontos para entrar no frigorífico – e se esta imagem não é maravilhosa, então não sei o que será.

Alexandra Moura F/W 21
Alexandra Moura F/W 21

A coleção trouxe a assinatura de Alexandra, mas com estampados e cores um pouco mais pop, à semelhança do que tinha acontecido com a coleção do inverno passado. Uma mudança que dá alguma frescura aos designs marcantes da estilista, e que tem potencial para se instalar como mais uma das assinaturas da marca. Deste lote recente de cunho Alexandra Moura, volta ainda o estampado ‘sopa de letras’, que foi aplicado de forma interessante nas malhas. No entanto, as peças estrela da coleção são os vestidos vermelho e azul que parecem feitos de fita-cola larga.

 Dos anos 90, resgatados por Alexandra Moura, passamos para a fronteira entre o real e o irreal. A dupla Ernest W. Baker explorou a linha ténue que separa o surreal, da realidade que vivemos. O vídeo que apresentou é uma verdadeira imersão neste conceito de sonho acordado, ou surrealismo vivido, relegando a roupa para segundo plano. No entanto, esta coleção merece a nossa atenção. O corte perfeito da Ernest W. Baker não é uma novidade, mas o desenvolvimento de peças menos clássicas é, e foi conseguida de forma brilhante. A roupa mistura as silhuetas dos anos 70, com algo de Matrix – ou é da minha visão, claramente influenciado pelos óculos e pelo cabedal – e um lado cinematográfico que se cola aos padrões e detalhes subtis. Os destaques vão para as peças de cabedal acolchoado, as aplicações de croché e os leather goods.

Ernest W. Baker F/W 21

Ernest W. Baker F/W 21
Ernest W. Baker F/W 21

A magia do cinema

Já que estamos numa onda cinematográfica, damos agora um salto até ao vídeo de Maria Gambina, que evocou algo de Tim Burton. A modelo surgiu sempre estática, envolta num cenário abandonado e vazio, mas munido de uma vida invisível, dada pelo movimento de câmara e pelas entradas de luz e fumo no espaço. Um ambiente que tinha tudo para se limitar a ser sombrio, mas que foi quebrado pela doçura e feminilidade das peças de Maria Gambina. As silhuetas abauladas e as flores recortadas marcaram a coleção, que também se fez de riscas e saias volumosas. O destaque da coleção vai para o casaco verde seco, que tem tudo para resistir ao declínio dos tempos, tornando-se intemporal.

Maria Gambina F/W 21, (photo: João Bettencourt Bacelar)

Maria Gambina F/W 21, (photo: João Bettencourt Bacelar)

Se este artigo fosse para eleger a apresentação mais cinematográfica do Take 1 do Portugal Fashion, o prémio teria de ser a atribuído a Katty Xiomara. A apresentação da coleção foi feita através de um vídeo de 10 minutos, com imagens dignas de qualquer sala de cinema. Neste vídeo a força veio das palavras, da música e da luz, a roupa serve para compor uma narrativa – que nos impele a parar e refletir – mas não é o seu centro. Destacam-se os estampados feitos a partir de rabiscos que Katty foi fazendo no processo criativo, e os bordados, que foram feitos tendo os mesmos rabiscos como base. É também de notar a presença masculina na apresentação, algo que a designer não fazia desde o início da sua carreira, vestindo peças sem género.

Katty Xiomara F/W 21 (photo: Elisa Ferreira)
Miguel Vieira F/W 21

Katty Xiomara F/W 21 (photo: Elisa Ferreira)

No âmbito da fluidez de género a grande surpresa foi Miguel Vieira. O designer fez um casting absolutamente brilhante e nos obrigou a olhar para as suas criações, geralmente mais clássicas, de uma forma completamente nova. Nesta apresentação destacaram-se também as peças de joalharia com a sua assinatura.

Apresentaram ainda Inês Torcato, com um vídeo onde a palavra foi a grande protagonista, e Maria Carlos Baptista, que o Pano Cru entrevistou aquando da sua apresentação em Paris. A estas juntaram-se Estelita Mendonça, que teve como destaque um casaco que explorou a forma de uma tenda de campismo, e David Catalán que apresentou uma coleção muito bem acabada e com uma paleta de cores sofisticada. Para o Take 2 do Portugal Fashion ficam reservados os restantes nomes do calendário, desta semana de moda. A data das apresentações ainda está por definir, mas é certo que os desfiles vão acontecer todos em ambiente digital.

Inês Torcato F/W 21 (photo: José Ferreira)

Maria Carlos Baptista F/W 21
David Catalán F/W 21
Estelita Mendonça F/W 21 (photo: Miguel Prata)

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