Conheça a fábrica da Benamôr por dentro

Reservei o último dia de maio para conhecer a fábrica da Benamôr, um desejo que estava guardado desde 2016, aquando do relançamento oficial da marca. É na zona industrial do Carregado, mesmo ao lado de uma fábrica de pastelaria, que são confecionadas as receitas de beleza desta marca histórica.

A planta industrial tem várias fábricas. Para chegar à parte cosmética é necessário atravessar um inclinado corredor de vidro, que tem tanto de frio industrial, como de antecâmara para uma realidade mágica. Magia essa que confirmo existir, algum tempo depois, através do agradável perfume que invade a sala dedicada à produção de sabonetes. Uma fábrica perfumada tem algo de mágico… e se isto não é uma verdade universal devia ser.

Antes de chegar à «cozinha», como Pierre Stark, CEO da Benamôr, gosta de chamar à sala onde se encontram os reatores, onde os cremes são produzidos, passamos pelo laboratório. É ali que a equipa de farmacêuticos faz a sua alquimia, literalmente a uma porta de distância da produção. Esta proximidade permite que as novas fórmulas da Benamôr sejam desenvolvidas com uma grande rapidez e eficiência.

«Como somos uma empresa pequena e temos uma capacidade de reação muito rápida, somos capazes de lançar produtos em pouco tempo. Lançar um novo produto numa empresa internacional, desde o primeiro dia de reflexão até ao lançamento, às vezes demora 18 meses. Aqui, em 3 ou 6 meses, conseguimos criar, testar, fazer o design e produzir um novo produto», conta Pierre Stark.

Pierre Stark, CEO Benamôr

A culpa é do Alantoíne

Ainda que os novos produtos possam partir de uma receita pré-existente, são sempre modernizados, acompanhando a evolução científica dos últimos anos. Existe, no entanto, uma receita beleza que não sofreu alterações significativas desde que foi lançada, em 1970. O creme de mãos Alantoíne permanece atual e eficaz há 50 anos, e foi ele que convenceu Pierre Stark a comprar e revitalizar a Benamôr.

Linha Alantoíne

Foi assim que aconteceu… Algures numa noite fria do janeiro parisiense, Pierre estava a jantar com amigos, enquanto estes conversavam e testavam os produtos desta marca portuguesa tão peculiar, que ele tinha a ideia louca de comprar. O jantar terminou, cada qual foi para sua casa, até que, já tarde, toca o telefone de Pierre. Uma das pessoas que estava no jantar tinha colocado o creme de mãos Alantoíne, antes de regressar a casa de mota, sem luvas. Estava a ligar para dizer o quão impressionada estava com a capacidade de proteção daquela fórmula portuguesa.

Fórmulas que funcionam são o segredo de qualquer marca de cosmética, garante Pierre Stark, seis anos depois daquele telefonema. Agora sentado diante de toda a gama da Benamôr, que se divide por sete coleções, com diferentes categorias de produto, explica-nos que cada fórmula é única. Por exemplo, todos os cremes de mãos têm as suas especificidades, ainda que possam ter estruturas idênticas não são a mesma coisa.

A fábrica da Benamôr nos anos 30, quando se localizava no Campo Grande.

A fábrica da Benamôr vista por dentro

Agora que já falámos das receitas podemos passar à cozinha, esse lugar onde os reatores parecem de facto caldeirões mágicos, daqueles que se vem nos filmes de animação. A sala de reatores divide-se em dois: de um lado pequenos caldeirões (onde são misturados os cremes da Benamôr) e do outro, reatores enormes, os maiores do país, que têm dentro a produção da fábrica para private label.

A Nally, que detém a Benamôr, foi fundada em 1925 tendo vivido os tempos áureos da cosmética em Portugal. Até à década de 70, o país era extremamente fechado e, por isso, a produção tinha como destino o mercado nacional. Do creme de rosto da Benamôr, a pastas de dentes, maquilhagem e o Bronzaline, o primeiro protetor solar no mercado nacional, a Nally foi construindo um enorme portfolio de produtos, sendo a procura interna suficiente para alimentar fábrica. Mas, depois da Revolução de 1974 tudo muda. Com a abertura de Portugal ao exterior, começam a entrar novas marcas que acabam por canibalizar o mercado nacional, sendo necessária uma nova estratégia de negócio. Assim, a produção passa a estar virada para a produção de cosmética para outras marcas.  Quando a Nally foi comprada, em 2016, cerca de 98% da produção era FEITA para grandes retalhistas. Hoje, o private label ainda representa 70% do negócio, sendo produzidos 10 milhões de unidades por ano, o que representa cerca de 8 milhões de euros de faturação.

Maquinaria pesada e as mãos leves

Os restantes 30% da produção dividem-se entre os produtos Nally e a Benamôr, que tem a maior fatia. A produção para os grandes retalhistas é completamente distinta da produção para as marcas da casa – nestas os processos são bastante mais manuais.

Algumas das máquinas utilizadas têm várias décadas, sendo assim preservado o saber histórico da marca. Exemplo disso é a máquina de enchimento destinada às embalagens de alumínio Benamôr, que são produzidas no Minho. O alumínio é um material muito frágil e por isso requere todo o cuidado. Por essa razão, as bisnagas de cremes são cheias numa máquina dos anos 60, que pode fazer até 4 mil unidades por dia. A máquina é circular e tem quatro estações: na primeira é colocada a bisnaga de metal aberta, na segunda é processado o enchimento, na terceira é fechada a bisnaga, e na última a ponta é dobrada e celada. Desta função, que conta com duas operadoras, uma para colocar as bisnagas e outra para as retirar, passa-se ao embalamento nas caixas de cartão que é totalmente manual.

Outra máquina absolutamente fascinante é a prensa para sabonetes, dos anos 50. Tapetes que sobem e descem carregam a massa que se irá transformar numa longa barra de sabonete. Barra essa, que é cortada grosseiramente com umas lâminas rotativas, a seguir cada pedaço vai à prensa onde a forma final o sabonete é cortada e a sua marca gravada. Depois de finalizados os sabonetes são embalados manualmente. Estamos na sala mágica e perfumada de que falei no início, o que me parece uma bela forma de acabar esta reportagem. Resta-me apenas dizer que na fábrica trabalham 60 pessoas, a que se juntam mais 20 dos outros departamentos com sede neste polo industrial.

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