A ModaLisboa da esperança e da alegria

O dia 7 de outubro marcou o regresso dos desfiles presenciais a Lisboa. Para trás ficaram os tempos das apresentações digitais, que por muito interessantes que tenham sido, não conseguiram colmatar a emoção de ver a roupa passar a um palmo e meio do nosso nariz.

«Foi gratificante passar pelo modelo digital e pelos vídeos. Mas exige uma contenção muito racional, as peças têm de ser feitas de uma maneira muito objetiva com uma grande contenção financeira. Todas essas condicionantes acabam por ser muito esmagadoras. Apresentar fisicamente é, outra vez, não pensar muito em nada. Fazer só o que realmente acho que vai funcionar e vai ser giro para o público ver. E que vai ser uma coisa mais única em termos de construção das peças, mais ligada à criação de moda de autor em atelier», contou Luís Buchinho ao Pano Cru.

Luís Buchinho voltou com tudo e mais algumas coisas

Para o designer esta foi uma estação de regressos, não só pelo formato de desfile, mas sobretudo pelo regresso à ModaLisboa, que tinha deixado há mais de sete anos. No último ano o designer apresentou de forma independente, tendo cortado o laço que o unia ao Portugal Fashion.

Este regresso a Lisboa é  mais um marco na sua carreira, andado de mãos dadas com os 30 anos da marca. Por tudo isto, esta é uma coleção de celebração, e é uma coleção que devemos celebrar, porque é uma das mais bem conseguidas do designer. Por onde começar? Pelos drapeados presos, pelas formas ondulantes absolutamente geniais, pelos plissados rígidos, pelos cortes a laser usados para criar padrões, pelas ilusões visuais conseguidas com linhas subtilmente contrastantes. A escolha é difícil, mas se tivesse de escolher alguma coisa optaria pelos dois últimos pontos referidos. Esta é uma coleção de autor sem sombra de dúvida, pelo trabalho de cada peça, pela complexidade dos moldes, mas também pelo trabalho único de cada material.

Luís Buchinho S/S 22

Luís Buchinho S/S 22

Luís Buchinho S/S 22

Luís Buchinho S/S 22

«Uma das coisas que tem sido muito marcante no meu trabalho ultimamente tem sido a transformação de matéria-prima, para texturas visuais que são só minhas. Nós compramos tecidos que são muito básicos, geralmente são telas brancas, e depois transformamos através de estampados, plissados, cortes a laser e drapeados no mono. Conseguimos criar coisas realmente únicas e que são só nossas, que só podem mesmo acontecer no universo da marca, isso é uma coisa muito importante na moda de autor», explica Luís Buchinho.

Um trabalho impressionante que nesta coleção se aliou às características mais marcantes do trabalho de Luís Buchinho: a mistura de texturas e as assimetrias. Nesta coleção o criador teve vontade de resgatar o sexy, deixando para trás a influência do sportswear que a pandemia impôs a quase todos os criadores. «Eu acho que somos sempre a esponja do que está a acontecer à nossa volta. Não faria sentido estar a apresentar uma coleção deste género há um ano atrás, estando toda a gente em casa. Agora nota-se que há uma ebulição, e um movimento muito gritante, vamos voltar a divertir-nos, vamos voltar a sair, vamos voltar às festas, e a coleção tem de ser um espelho disso».

Do digital para o presencial

 E quanto às mazelas deixadas pela pandemia? «Os problemas ainda não estão completamente ultrapassados, as pessoas não estão a voltar propriamente ao que eram as suas encomendas de loja. Ainda temos um caminho pela frente. Mas apresentar em Lisboa, e em formato de desfile, vai-me ajudar sobretudo emocionalmente, e se não estiver emocionalmente gratificado a marca não existe».

Quem tem uma opinião diferente sobre o formato digital é Constança Entrudo. A criativa gostou tanto desta maneira de apresentar que a tentou levar para o formato físico. «Eu gostei realmente destes tempos digitais, em que eu só mostrava o meu trabalho da forma que eu queria, através dos meus olhos. No fundo, conseguia filtrar o que estava a mostrar, conseguia dar ênfase às coisas que queria. O que acontece com o físico é que muitas vezes não controlamos isso, e para mim é muito importante partilhar a visão certa e os meus ideais. Esta ideia do set foi para que a visão se mantenha», explicou a designer ao Pano Cru.

Constança Entrudo

Uma ideia que conseguiu concretizar, já que não apresentou um desfile, mas uma performance que em tudo se assemelhava a uma fotografia animada. O set só podia ser visto da parte da frente, as modelos nunca mudaram de lugar, fazendo apenas ligeiros movimentos coordenados pela criadora. Os três coordenados da frente tiveram todo o destaque, sendo difícil observar os que se encontravam atrás, que só podiam ser vistos através das aberturas do set. A visão de Constança Entrudo foi a visão do público geral. A coleção fez-se de cores muito fortes, com o trabalho complexo de têxtil e linhas que é a assinatura da designer. No total foram apresentados 6 coordenados, que se desdobravam em 16 peças, ainda que a coleção comercial seja feita de muitas mais referências que não fizeram parte da apresentação.

«Os coordenados são poucos, porque gosto de fazer coleções pequenas – já fiz coleções maiores e posso voltar a fazer, mas preciso de muito para criar peças que sejam realmente relevantes, se não só estamos a fazer mais moda por fazer, acabando por fazer peças que não têm qualquer ligação sentimental comigo. Então as peças que eu criei são realmente as peças que queria mostrar», revela Constança Entrudo.

 Há coisa mais bonita do que ser livre?

Da nova geração de designers destaca-se ainda Joana Duarte, da Béhen, um dos projetos mais interessantes da moda nacional neste momento. O desfile não foi antecipado pela música, mas sim por palavras de ordem. Na sala de desfile ouvimos ‘O povo unido jamais será vencido’, não foi preciso mais que isto para sabermos que este desfile seria uma ode à liberdade. Não à liberdade política, mas sim à liberdade das mulheres em Portugal, que vendo bem também é uma liberdade política. Para explorar este tema Joana conversou com 15 personalidades, homens e mulheres, que foram revolucionários das mais diferentes formas, no tempo da ditadura. Foi destes relatos que Joana começou a formar um puzzle com peças do que era mulher nesses tempos e o que vestia, a essas peças juntou outras com outros elementos do vestuário que ao longo da história castraram a liberdade feminina, depois misturou isto tudo com uma reflexão sobre o que é ser mulher hoje. Assim nasceu a coleção ‘Liberdade é nome de mulher’.

«Este não foi um processo fácil, foram muitos meses, são muitas pessoas, são muitos contactos que se têm de fazer. Claro que na inspiração final é impossível traduzir a conversa sobre a vida destas pessoas em roupa, mas há coisas que surgiram das conversas. Por exemplo, a cor favorita, ou alguém ter ouvido num momento da vida que a saia que tinha vestida era demasiado curta e isso ter sido marcante, ou que só usava preto, ou só usava renda, acabaram por ser cruciais», conta Joana Duarte, ao Pano Cru.

Estes sinais claros da opressão, muitas vezes social, surgiram na coleção em forma de minissaias, transparências e decotes. Quase como se esta coleção fosse a libertação de todas a convenções sociais daquela altura. De outra época chegaram as mangas presunto das camisas. Mas a grande novidade desta coleção foi a apresentação de coordenados pretos, uma cor que Joana nunca tinha utilizado antes, e que confessou ter adorado. «Adorei porque é de uma elegância muito grande. Acho que também me ajuda a explorar outra paleta de cores. É muito difícil, eu tenho muitas limitações com as cores das colchas. Eu tenho de tentar ser muito criativa, porque as cores são todas do mesmo género».

Esta dificuldade da Béhen advém do facto da marca utilizar maioritariamente materiais já existentes, sobretudo colchas, mas também lençóis e toalhas. Nesta coleção o coordenado de renda preta foi feito com um excedente de produção, sendo os únicos tecidos novos da coleção os bordados da Madeira e Viana do Castelo, com cores.

Nuno Baltazar pôs tudo a branco

Quem optou por abolir as cores por completo foi Nuno Baltazar, que apresentou uma coleção toda branca, ainda que com algumas tonalidades distintas, dentro desta gama de cor. O branco assumiu dimensões e significados diferentes: o branco do pano cru que dá início às coleções, o branco de uma página vazia pronta para o futuro e o branco do vestido de noiva que é um dos símbolos máximos do trabalho de atelier.

«Essa ideia do vestido de noiva, do branco, do abandono, teve muito a ver com o voltar ao início. No fundo voltei atrás, voltei ao momento de construção desse vestido, o momento em que esse vestido é mais acarinhado, é construído, é desejado, é procurado. O que eu queria mostrar era o dia-a-dia no atelier, como nós trabalhamos, como construímos os vestidos, como é o trabalho autoral que não é a mesma coisa que uma marca industrializada e isso não pode ser uma carência, mas algo que me fortaleça», descreve Nuno Baltazar.

Este mergulho no trabalho de atelier começou ainda antes do primeiro vestido entrar, com o som de tesouras, de giz a riscar os moldes e tecidos a serem desenrolados na mesa de corte, numa composição sonora de Luís Lobo. Outro elemento que nos levou para o atelier ao longo do desfile foi a utilização dos monos como parte integrante dos coordenados. Um detalhe que tinha sido utilizado, como elemento mais visual, noutras duas coleções, mas que nesta ganhou um enorme destaque tornando-se num elemento-chave da coleção, pensado para ser usado. Também o lettering e numeração se destacou, remetendo-nos para as marcações e indicações de corte deixadas a giz no tecido.

Nuno Baltazar

Da coleção destacam-se os drapeados, as mangas volumosas e o trabalho de mistura de tecidos de vestidos antigos, que o designer tem vido a desenvolver desde outubro de 2020, e que se reflete em cerca de 50% da coleção. «O vestido que a Rita usou tem mais de 42 partes diferentes de vestidos diferentes. Aquele vestido é o quebra-cabeças da coleção, estive dias à volta dele. Foi uma coisa intuitiva, eu tinha a forma e depois ia procurando os bocados de tecido, e sei de onde vem cada um deles», revela o criador.

No entanto a par deste trabalho autoral, Nuno Baltazar apresentou peças bastante mais comerciais como as sweatshirts, revelando que o futuro também passa por aí. «O futuro para mim é colaborativo, é procurar parceiros que me permitam ter coleções cápsula de maior difusão e a um preço acessível, e depois há o trabalho autoral. O desfile é um momento absolutamente de assinatura e a partir daí vamos desenvolvendo outros projetos».

Das NFT’s ao êxodo para o campo: os opostos pandémicos

Do futuro parece chegar a coleção de Ricardo Andrez, inspirada por um mundo digital que vai das NFT’s, à modelagem 3D e videojogos. «A coleção traz um bocadinho deste mundo virtual que nós sentimos na pele. O estampado é um corpo humano pixelizado ao máximo. Só em peças mais longas é que se percebe que é um corpo humano», esclarece o designer.

Ricardo Andrez


Ricardo Andrez

Das formas destacam-se os drapeados presos com nós, que são uma novidade. Da assinatura a que nos tem habituado mantêm-se os ilhós com botões, as peças oversize e a reinvenção dos clássicos, com especial destaque para os casacos extremamente bem cortados. Mais uma vez Ricardo Andrez aposta na fluidez de género sem que a sua roupa tenha um público predefinido.

De fluidez de género vive também Luís Carvalho, que apesar de ter coleção masculina e feminina, usa elementos cruzados sem lhes pôr pronome algum. Esta foi a coleção mais feminina que alguma vez criou, e esta apropriação de elementos femininos para o universo masculino tornou-se ainda mais evidente. A culpa é dos laços, com destaque para as lapelas masculinas. No universo feminino destacam-se as ombreiras com abertura lateral que tinham este elemento com[SLdC18] o personagem principal.

«Nesta coleção a parte de homem tem bastantes elementos femininos. E cada vez gosto mais de trabalhar esta igualdade entre homem e mulher», conta Luís Carvalho.

A coleção teve como inspiração uma viagem da cidade para o campo, indo buscar à paisagem os amarelos, os castanhos terra, mas também o lilás das flores campestres. Como contraponto desta coleção marcadamente diurna, surgiram materiais metalizados, que deram um apontamento urbano e noturno à coleção.

Luís Carvalho desfilou uma semana depois de ter recebido o Globo de Ouro para personalidade da Moda. «Apresentar esta coleção teve um pouco mais de pressão, porque sinto que tenho os olhos posto em mim. Quero aproveitar isso a favor da marca, usando isso para crescer», confessa.

Assim se passaram quatro dias de moda, quatro dias em que a esperança de regressar ao normal esteve mais inflamada. Inflamada pela alegria de estarmos juntos, de ver as coleções a palmo e meio do nariz, mas sobretudo uma esperança inflamada pelo otimismo que as coleções levaram para a passerelle, sem medos.


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