Portugal Fashion: nove ecrãs gigantes, cores inesperadas e muito rock

Os 1200m2 da Sala do Arquivo, na Alfândega do Porto, encheram-se com centenas de metros de tecido branco que caía do teto, paralelepípedos a fazer de bancos e nove ecrãs gigantes que invadiram a sala de desfile com o espírito de cada coleção. Uma passerelle única que resultou de forma brilhante em muitos dos desfiles.

Quem aproveitou a virtualidade do espaço da melhor forma possível foi Alexandra Moura, ao passar um vídeo repleto de imagens da marca ao longo dos últimos 20 anos. Uma compilação feita em parceria com Rui Aguiar, e que nos guiou pelo underground romântico que caracteriza Alexandra Moura.

«Estas imagens foram feitas já em cima do desfile de Milão, as caras dos manequins asiáticos (que abrem o vídeo) foram manequins que fizeram o nosso desfile, fizeram o fitting e foram fotografados naquele momento. Claro que aqui quando soubemos que os vídeos iriam acontecer, e que ainda iríamos ter mais ecrãs, pensámos juntar as imagens de lá com imagens que nos tragam todo o conceito da coleção: o lado mais underground, o lado mais psicadélico, no fundo transportar a nossa visão das coisas para outras dimensões, fazer com que as pessoas saiam um bocadinho da cabeça, daí esta compilação toda de imagem», conta Alexandra Moura depois do desfile.

O vídeo foi o arranque perfeito para um desfile que teve tanto de punk, como de romântico, e onde o desportivo e o clássico foram desconstruídos em pé de igualdade. Esta coleção com 36 coordenados foi uma verdadeira celebração do ADN Alexandra Moura e não faltaram formas e detalhes de coleções passadas. Atilhos, ombreiras abertas, peças com vários colarinhos, mangas duplas, peças que podem ser usadas de várias formas, e malhas feitas do logotipo da marca desconstruído, foram alguns dos elementos que voltamos a ver na passerelle. De novo chegou-nos o cor-de-rosa forte, que surgiu em look total em cinco coordenados.

«Foi a primeira vez que meti um rosa destes numa coleção. Sempre associei o rosa, não só ao psicadélico, mas ao amor, tem a ver com o nosso chakra ao lado do coração, que é o amor incondicional. Daí esta vontade de me espojar em tanto cor-de-rosa naquele atelier durante tantos meses, e absorver se era mesmo aquilo que queria, e nunca me cansei dele. E isso foi logo um indício de que era uma cor que tinha de usar», revela a designer.

Alexandra Moura S/S 22


Alexandra Moura S/S 22

As novidades cromáticas do Portugal Fashion

De cores novas também se fez o desfile de Pé de Chumbo, que saiu do seu registo mais neutro para se aventurar em tonalidades mais quentes. Tudo isto num jogo de sobreposições que deu novidade a uma marca que tem uma imagem muito marcada.

«Esta coleção já estava feita há muito tempo, e estava feita aquela parte colorida toda. Apeteceu-me fazer muita cor, para sair daquela monotonia (do confinamento)», conta Alexandra Oliveira. Às cores vivas juntaram-se as sobreposições e os folhos, que deram um lado jovial à coleção. «Eu sinto-me a envelhecer, mas não queria, então apetece-me fazer coisas muito jovens», explica a designer.

«Esta textura que fizemos desta vez resultou em algo mais jovem, comecei as fazer a experiência da textura e percebi que as sobreposições funcionavam. Como é uma malha mais aberta conseguimos fazer folhos porque são fios fininhos», revela a criativa.

A Pé de Chumbo é uma marca com uma técnica única, a designer não utiliza tecidos, fazendo textura manualmente através do uso de fios. Por isso, todo o trabalho de moldes e construção das peças implica muitas horas de experiências e testagens. Experiências essas que se prolongaram sobretudo nos coordenados masculinos, que apresentou pela segunda vez em passerelle.

«No inverno fizemos três coordenados de homem, mas só camisolas, só parte de cima. Agora atrevi-me um bocadinho e fiz, nem sei se resulta ou não. A diferença são só os volumes, porque trabalhar homem ou trabalhar mulher é a mesma coisa. Mas o volume ainda complica um bocadinho, porque estamos habituadas a volumes mais pequenos. Mas tenho muitos clientes que me pedem homem, apesar de eu ainda não ter levado homem às feiras, porque ainda tenho de afinar os tamanhos para depois conseguir entregar».

Continuando a escrever sobre as novidades cromáticas do Portugal Fashion, é chegada a vez de Diogo Miranda. O designer utilizou pela primeira vez o amarelo claro, o verde pistacho e o beringela, que se juntaram ao azul vibrante, ao bordeaux e ao castanho. Uma coleção em que a cor ganhou um enorme destaque, invadindo o espaço através de tecidos leves que de uma forma descontraído impuseram um tom de festa e elegância.

O designer inspirou-se numa viagem a Roma e outra à Grécia, e de lá trouxe as referências das vestes antigas repletas de drapeados e muitos metros de tecidos. Destacam-se as formas amplas que em alguns coordenados se prolongam das bainhas, sendo habilmente levadas até ao pescoço para formar capas. Sendo o destaque para o vestido beringela, que desfilou em quarto lugar e para o macacão azul, que chegou vinte coordenados depois. Dos detalhes importa ainda referir os botões forrados que conferiram versatilidade a muitas das peças.

Diogo Miranda S/S 22


Diogo Miranda S/S 22

Uma viagem pelo cérebro humano

Fazemos agora uma pausa nos desfiles para falar da apresentação de Susana Bettencourt. Numa sala com dois espaços distintos Susana Bettencourt apresentou a sua coleção Azáfama. Logo em frente à porta, preso num acrílico encontramos um cérebro feito em renda de bilros, as manchas assinaladas representam os pontos do cérebro que são afetados quando estamos sob stress. Uma obra que demorou 35 dias, num total de 1120 horas, a ser feita. Ficamos ainda a saber que foram precisas 4 artesãs e 433 metros de frio para terminar esta peça. Ao lado, num manequim encontra-se um vestido com a mesma renda e nas paredes, emolduradas, pequenas amostrar desta técnica artesanal portuguesa. Como informação nunca é demais, também na sala se encontram vídeos que mostram todo o processo.

«Achamos importante mostrar o nosso processo criativo desde o início através do vídeo. E depois expormos como obras de arte, explicando as horas de trabalho e o material envolvido em cada peça. Isto para que o espectador consiga entender o trabalho que está por trás da coleção», conta a designer.

Na sala seguinte estão modelos que juntam não só peças com um trabalho rendilhado muito idêntico ao da sala anterior, mas também alguns jacquards com os mesmos desenhos das manchas que surgem no nosso cérebro quando somos afetados pelo stress. Estas peças são únicas e constituem a parte mais conceptual da coleção. «Estas peças são as que nos permitem explorar o tema ao máximo, são as nossas peças mais artísticas», explica Susana Bettencourt. A coleção comercial será lançada diretamente para venda, através da loja online da marca, mantendo-se os motivos criados para a coleção Azáfama.

Bloqueios que deram frutos

Foi junto ao rio que a Unflower desfilou pela primeira vez, fora da plataforma Bloom. Joana Braga e Ana Sousa apresentaram uma coleção inspirada no verão, misturando de forma harmoniosa as suas referências sportswear e clássicas.

«Esta coleção foi muito difícil, foi a mais difícil», revelam depois do desfile. As designers assumem que tiveram um bloqueio criativo, talvez por esta ser uma coleção mais importante e por terem mais pressão.

Unflower S/S 22


Unflower S/S 22

«Em setembro ainda não tínhamos a coleção, estávamos mesmo a ficar sem tempo. A Joana começou a desenhar em papel, que era uma coisa que já não fazíamos, e isso ajudou-nos muito», conta Ana Sousa. O que é certo é que depois de arrancarem com a coleção tudo correu bem, mantendo as linhas arredondadas da marca, com um grande destaque para as aberturas em tops e vestidos e também para os bolsos. A grande novidade são os atilhos numa coleção que é espelho de uma maior maturidade da marca.

Quem também encontrou inspiração no meio de um vazio criativo foi Hugo Costa e a culpa foi de Guns N’ Roses estar a tocar no estúdio. «Isto começou num momento em que nem estávamos assim tão inspirados, precisávamos de um tema, não de forma desesperada, mas estávamos à procura, não estávamos satisfeitos com o que íamos encontrando e de repente estávamos a ouvir música no estúdio e… Guns! E fez-me sentido. Começou tudo daí», revela o designer.

A coleção inspiração focou-se sobretudo no estilo de Axel Rose, «no que ele foi mas não esquecendo o que ele é, daí aquele acabamento em cru de algumas peças, também para dar alguma decadência e desgaste». A isto juntaram-se elementos de styling como os bonés e acessórios negros, mas também os kilts. «Acabamos por criar o nosso kilt que acaba por ser um avental com um calção. Dois painéis abertos para perceber a lateral. Um kilt com uma imagem mais moderna que funcionassem na nossa silhueta», explica Hugo Costa.

Para trazer o estilo de Axel Rose para o universo da marca, o designer optou por ter poucas matérias-primas, trabalhando-as em bloco, tal como nos tem habituado e manteve também o ADN unissexo da marca.

Um exercício de experimentação

O Portugal Fashion encerrou com o desfile de Alves/Gonçalves, repleto de silhuetas e materiais distintos, onde o trabalho de atelier se torna evidente. «Os ateliers dão a possibilidade de experimentar», contam os designers. Houve um pouco de tudo, desde materiais técnicos, a denim com acabamentos inesperados, um pouco de crochet, materiais técnicos, plissados e cortes a laser.

Alves/Gonçalves S/S 22


Alves/Gonçalves S/S 22

«A mim deixa-me sempre marca quando eu consigo transformar um material que não é nobre em alguma coisa mais sofisticada. Eu gosto muito de trabalhar esse tipo de materiais e misturar a tecnologia e o futuro, acho que sem isso a moda não faz sentido», diz Manuel Gonçalves.

Dos poucos elementos repetidos em mais de um coordenado foram as estrelas, e também foram elas que carregaram a mensagem da coleção. «A estrela para mim representa milhares de coisas, mas representa sobretudo uma esperança no futuro. Temos de superar isto tudo, por isso vamos lá pensar nas estrelas e sonhar um bocado com as coisas. Sonhar, foi esse o sentido que quisemos dar à estampagem das estrelas».

O destaque vai para os dois últimos vestidos do desfile, que quiseram ser uma verdadeira radiografia do vestido de noiva. «A história dos dois últimos vestidos é mostrar, não quisemos esconder nada, quisemos mostrar a estrutura de como fazemos as coisas. O pano cai só sobre para evidenciar a estrutura tanto do corpete como das saias».

Foi com esta visão para a moda que muitas vezes é escondida pela roupa que encerrou mais um Portugal Fashion. Quatro dias de moda, com 40 horários assinalados, entre desfiles e apresentações, aqui fica apenas uma parte do muito que aconteceu.

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